Carta ao Papai Noel
Passando para desejar um Feliz Natal.
Excepcionalmente – e por causa da data – divido aqui a última crônica publicada no Globo. Todo o ano é um desafio: como falar aos leitores sobre as festas de fim de ano sem se repetir? Como mantê-los interessados até o fim da coluna? Essa foi a solução de 2025.
Numa crônica cada palavra, sentença e parágrafo contam. É um trabalho minucioso, feito para convencer o leitor de que um texto nada utilitário merece ser lido pelo prazer da leitura.
Uma boa crônica – no espírito rubem braguiano, sobre cotidiano, detalhes, besteiras - associa o prazer à leitura.
É também um textinho sonso. Uma crônica se define como despretensiosa, mas quando bem feita ela fica no leitor enquanto as notícias passam.
Cada cronista tem lá seus métodos. Eu me baseio em voz e humor. Noutro momento, quando eu não estiver escrevendo na correria para depois ajudar minha mãe a fritar rabanadas, voltarei ao tema.
Boas festas, minha gente. Com mesa farta e muito afeto.
Carta ao Papai Noel
Caro Papai Noel,
Não nos falamos desde o Natal de 1984, quando eu pedi uma bicicleta e o senhor me trouxe um jogo de lençol. Eu até entendo a pressão da época, os milhões de pedidos, a logística de entrega, mas, convenhamos. Nenhuma criança se comporta o ano todo para ganhar uma fronha.
Quando o presente surgiu sob a árvore eu pensei: Papai Noel é jeitoso, dobrou muito bem essa bicicleta. Rasgo o papel, e devo ao choque da descoberta o fim da minha infância.
— Mas é um floral tão bonito. Da Buddemeyer, disse minha mãe, tomando o partido do elfo.
Foi um momento de intensa revolta. Contra o gosto primaveril da minha mãe e a sua péssima escolha de equipe. Elfo tem que fazer brinquedo. Nem que seja um bilboquê, esta porcaria unanime ao frustrar adultos e crianças, já que a bola nunca entra no pitoco. Elfo que faz roupa – e pior, roupa de cama – merece a deportação para uma fábrica na China.
Há 40 anos eu estou com esse presente entalado na garganta. E não venha se gabar da qualidade do tecido ou de que “o lençol debaixo tinha elástico”, como justificou minha mãe, novamente em conluio com o elfo. A coisa não está boa para o seu lado.
Esta carta é para lhe oferecer o privilégio do meu perdão mediante a entrega de alguns presentes. Oportunidade única. Para que você não morra carregando a culpa na imagem da menina entre papéis rasgados, olhando uma fronha e pensando: fronha.
Eu quero um pé de manacá. Florido e cheiroso, transposto do Rio para a Califórnia. Eu quero o clima de acordo na minha varanda. Morno e úmido, ao que você pergunta: como eu faço? Dê seu jeito. Se família Addams tem uma nuvem sobre a casa, a minha varanda pode ter um microclima tropical.
Eu quero o estado mental que possibilite ao meu marido entender-me telepaticamente, para enfim declarar: ó Martha, mais sábia de todas, és a dona da verdade e da razão. As prioridades do mundo se bagunçaram. Enquanto inventam uma inútil lixeira eletrônica esta fundamental ferramenta de comunicação ainda está para ser descoberta. Resolva, Noel.
Eu quero uma cadeira, ergonômica e de rodinhas. Na ONU, onde me será outorgado mais poder do que o Estados Unidos, este país de quinta categoria em termos democráticos. Na mesma linha (o mesmo presente, Noel, não me enrole), eu quero a liderança no Congresso. Eu quero mandar na Otan e bora arredondar, eu quero mandar no mundo. Tal responsabilidade pode ser dividida com as minhas amigas do grupo de artesanato. Qualquer uma faria um trabalho melhor do que esse daí. De quebra encheríamos os espaços públicos com sabonetes envoltos em feltro e cisnes de origami.
No mais, deu um problema aqui na minha composição, porque nasceu joanete só num dos pés. Por favor elimine, e como subtrair (me acompanhe, Noel) não adiciona, tal pedido não se registra como um presente. É apenas um exemplo da minha generosidade, para lhe dar o prazer de me agradar.
Termino pois a missiva. Mantenha-se por favor na linha. O senhor, como homem branco, velho e nórdico, sabe muito bem que os da sua laia comportam-se mal há séculos. Ficarei de olho.
Atenciosamente,
Aquela menina da fronha.


